Investigação documental · História política · Transparência eleitoral

Da Arena ao bolsonarismo: famílias políticas do interior de São Paulo ainda controlam a ALESP?

Uma análise de 1964 a 2026 cruza nomes e genealogias, votação Arena/MDB, resultados de Bolsonaro na capital e no interior, e os financiadores declarados de campanhas paulistas em 2026.

18 de outubro de 2026 · Leandro Calado Ferreira · LCF Consulting · Histórico: 1964–2026 · Financeiro: corte 27/09/2026

Resposta resumida

Há continuidade de redes políticas. Não há prova de uma transmissão linear do voto da Arena ao bolsonarismo.

Documentos mostram redes familiares e políticas que atravessaram décadas, algumas ligadas à antiga Arena e outras oriundas do MDB. O caso Costa Neto conecta uma família com origem na Arena, a direção atual do PL e a presidência da ALESP. Entretanto, o voto oposicionista no interior cresceu durante a própria ditadura e o resultado da capital mudou substancialmente entre 2018 e 2022. Portanto, a hipótese de que o interior apoia Bolsonaro por ter vivido uma ditadura “mais branda” permanece sem comprovação causal.

Este texto distingue cinco relações: parentesco, filiação partidária, atuação institucional, votação eleitoral e transferência financeira declarada. Uma relação não prova automaticamente as outras. O painel Eleições da LCF serve à consulta financeira; as fontes históricas permanecem discriminadas ao final.

Gráfico 1 · Série histórica

Como Arena e MDB disputaram votos na capital e no interior (1966–1978)

A cientista política Maria Teresa M. Kerbauy analisou o realinhamento partidário paulista após o golpe de 1964. A tabela histórica utilizada abaixo descreve o percentual de votos para deputado estadual em relação ao conjunto do eleitorado votante, incluindo brancos e nulos. Não são percentuais de votos válidos equivalentes às eleições presidenciais recentes.

0%20%40%60%1966197019741978Arena interior, 1966: 42.4%Arena interior, 1970: 55.5%Arena interior, 1974: 33.6%Arena interior, 1978: 30.4%MDB interior, 1966: 29.2%MDB interior, 1970: 16.4%MDB interior, 1974: 45.8%MDB interior, 1978: 45.7%Arena capital, 1966: 29.7%Arena capital, 1970: 47.2%Arena capital, 1974: 19.6%Arena capital, 1978: 18.4%MDB capital, 1966: 36.3%MDB capital, 1970: 18.6%MDB capital, 1974: 57.4%MDB capital, 1978: 60.2%
Arena interiorMDB interiorArena capitalMDB capital
Votação estadual em % — reprodução da série publicada por Kerbauy (1993)
AnoArena interiorMDB interiorArena capitalMDB capital
196642,4%29,2%29,7%36,3%
197055,5%16,4%47,2%18,6%
197433,6%45,8%19,6%57,4%
197830,4%45,7%18,4%60,2%

O que muda em 1974: o MDB passa a superar a Arena tanto no interior (45,8% contra 33,6%) quanto na capital (57,4% contra 19,6%). A capital já mostrava maior participação oposicionista, mas o interior também se afastou da Arena. Isso enfraquece a hipótese de continuidade eleitoral ininterrupta do partido governista até o bolsonarismo.

Fonte primária de análise: Kerbauy, O tradicionalismo em declínio, Perspectivas/Unesp, 1993. A composição partidária histórica não permite inferir preferências individuais atuais.

Gráfico 2 · Geografia eleitoral

O voto em Bolsonaro não foi estável nem na cidade de São Paulo

60,38%Bolsonaro na capital paulista · 2º turno 2018
46,5%Bolsonaro na capital paulista · 2º turno 2022
58,44%Bolsonaro fora da capital · SP 2022, inclui metrópole e litoral
Capital 201860.38%Capital 202246.50%Demais municípios 202258.44%

Em 2018, Bolsonaro obteve maioria dos votos válidos na capital; em 2022, ficou abaixo de 50%. No Estado inteiro, recebeu 55,24% no segundo turno de 2022; excluindo os votos da capital, a participação foi de cerca de 58,44% no conjunto dos demais municípios. “Demais municípios” não significa somente interior: inclui Grande São Paulo e litoral.

Voto presidencial não mede automaticamente aprovação de 1964, das Forças Armadas ou da repressão política. Municípios possuem perfis sociais, econômicos e religiosos heterogêneos; cada eleitor tem razões distintas para sua escolha.

Bases de cálculo e comparação: TSE · estatísticas eleitorais e painel eleitoral LCF. Os valores de 2018 e 2022 são da investigação histórica previamente consolidada pela LCF.

Genealogia documental

Quais famílias políticas atravessaram 1964–2026 e onde estão hoje?

O recorte reúne cadeias para as quais há registros biográficos ou institucionais. Não se trata de um censo de todos os ex-deputados da Arena. “Continuidade” significa permanência de parentes ou atores em espaços de poder, não identidade ideológica permanente.

Costa / Costa Neto Arena → PL

Waldemar Costa Filho, pai de Valdemar Costa Neto, esteve associado à Arena e foi prefeito de Mogi das Cruzes durante a ditadura. Seu filho construiu carreira própria, passando pelo PDS e tornando-se dirigente nacional do PL. Jair Bolsonaro ingressou no PL em 2021.

O elo com a ALESP aparece em André do Prado: na sessão solene de 27/02/2026, ele reconheceu a influência de Valdemar no início de sua vida pública. Esse é um vínculo pessoal-partidário documentado; não equivale à existência de um controle familiar sobre todas as cadeiras.

ALESP · registro integral da sessão de 27/02/2026

Chedid Arena → ALESP → prefeitura

Nabi Abi Chedid foi eleito deputado estadual pela Arena em 1966 e 1970, conforme biografia institucional da ALESP. Seu sobrinho Edmir Chedid exerceu mandatos estaduais até 2024 e assumiu a Prefeitura de Bragança Paulista em 2025. O poder familiar migrou de esfera, mas a linhagem não implica vínculo automático de cada mandato com o bolsonarismo.

ALESP · biografia de Nabi Abi Chedid

Izar Arena → Câmara Federal

Ricardo Nagib Izar transitou pela Arena e partidos posteriores. Seu filho Ricardo Izar Júnior teve trajetória parlamentar federal. O registro demonstra sucessão familiar em outra esfera de representação, não manutenção comprovada de cadeira da família na ALESP em 2026.

Câmara dos Deputados · acervo biográfico

Macris MDB → PSDB

Vanderlei Macris foi parlamentar da oposição pelo MDB durante a ditadura. Seu filho Cauê Macris presidiu a ALESP entre 2017 e 2021. A continuidade política dessa família não deriva da Arena: começou no campo oposicionista. A sucessão familiar direta na Assembleia se interrompeu posteriormente.

ALESP · histórico parlamentar

O próprio percurso partidário de Bolsonaro

Bolsonaro exerceu mandatos federais pelo PDC, PPR, PPB e PP, entre outras filiações. O PPR foi formado pela fusão de PDS e PDC; essa trajetória o conecta a uma linhagem organizacional derivada do campo governista do regime, mas não prova continuidade jurídica integral nem convergência de todos os integrantes desses partidos.

Câmara dos Deputados · biografia e mandatos de Jair Bolsonaro. A composição dos 94 eleitos da ALESP em 2026 deve ser examinada individualmente.

Gráfico 3 · Teste empírico exploratório

Nove municípios: oposição à Arena em 1978 versus Bolsonaro em 2022

Cruzamos a razão MDB/Arena para deputado federal em 1978 em nove cidades incluídas no estudo de Kerbauy com o percentual de votos válidos de Bolsonaro para presidente em 2022. A seleção vem da tabela original; não é uma amostra probabilística e compara cargos distintos.

50%60%70%1234Razão MDB/Arena (1978)Bolsonaro 2022 (%)Americana: MDB/Arena 4.29, Bolsonaro 67.26%Araçatuba: MDB/Arena 1.63, Bolsonaro 69.25%Araraquara: MDB/Arena 1.45, Bolsonaro 49.50%Franca: MDB/Arena 1.39, Bolsonaro 63.88%Limeira: MDB/Arena 1.67, Bolsonaro 73.45%Marília: MDB/Arena 1.79, Bolsonaro 69.43%Presidente Prudente: MDB/Arena 1.51, Bolsonaro 68.00%Rio Claro: MDB/Arena 1.32, Bolsonaro 67.63%São Carlos: MDB/Arena 2.62, Bolsonaro 51.98%
9municípios analisados; não representam 645
−0,039Correlação Pearson (linear)
0,167Correlação Spearman (postos)
Razão de votos MDB/Arena em 1978 (deputado federal) × Bolsonaro no 2º turno presidencial de 2022
MunicípioMDB/Arena · 1978Bolsonaro · 2022
Americana4,2967,26%
Araçatuba1,6369,25%
Araraquara1,4549,50%
Franca1,3963,88%
Limeira1,6773,45%
Marília1,7969,43%
Presidente Prudente1,5168,00%
Rio Claro1,3267,63%
São Carlos2,6251,98%

Uma cidade com elevado voto no MDB em 1978 pode ter registrado apoio expressivo a Bolsonaro em 2022. O resultado desta amostra é próximo de correlação linear nula; isso não demonstra ausência de toda influência histórica, mas enfraquece a ideia de uma transmissão simples e uniforme do eleitorado Arena → bolsonarismo.

Fontes: tabela histórica da Unesp e apuração municipal de 2022 reproduzida no estudo LCF; consulte também os resultados de Americana, Limeira e São Carlos.

Gráfico 4 · Financiamento atual

Quem financia as campanhas em São Paulo em 2026?

O Financiando o Brasil registra R$ 817.835.736,45 em receitas declaradas para 2.410 candidaturas com receita no recorte de São Paulo, com corte em 27/09/2026. O valor agrega governador, deputados federais e estaduais; não representa doações empresariais, arrecadação de uma única pessoa nem números finais do TSE.

Para exemplificar o cruzamento nominal, a base de trabalho de doadores oficiais a governador em 2026 registra, entre as cinco maiores entradas da campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), os seguintes nomes e valores no recorte:

Republicanos — direção nacional11,625 miRepublicanos — direção estadual SP4,209 miPRD — direção nacional1,5 miCelso Ferreira Penço Filho0,6 miHélio Seibel0,575 mi
Campanha Tarcísio de Freitas, SP, 2026 — cinco maiores entradas do arquivo de trabalho da LCF; valores declarados, sujeitos a retificação
Fonte declaradaClassificaçãoValor no recorte
Republicanos — direção nacionalrepasses partidáriosR$ 11.625.000,00
Republicanos — direção estadual SPrepasses partidáriosR$ 4.209.000,00
PRD — direção nacionalrepasses partidáriosR$ 1.500.000,00
Celso Ferreira Penço Filhopessoa físicaR$ 600.000,00
Hélio Seibelpessoa físicaR$ 575.000,00

O valor total de receitas atribuído a essa candidatura no arquivo processado é R$ 30.501.925,39. A tabela acima contém somente as cinco maiores entradas, não toda a arrecadação. As direções partidárias são entes partidários, não empresas comerciais. Celso Ferreira Penço Filho e Hélio Seibel são doadores pessoas físicas identificados na base; os registros não comprovam que suas empresas, caso existam vínculos societários, tenham feito doações corporativas.

Conferência adicional: candidatura Tarcísio e ranking declarado e TSE — prestação de contas 2026. Os nomes/valores podem diferir de snapshots posteriores.

E a conexão PL–ALESP? O exemplo de André do Prado

Na candidatura de André do Prado ao Senado em 2026, fonte complementar que não integra o mesmo recorte de governador/deputados do painel mostra cerca de R$ 6,95 milhões de repasses da direção nacional do PL, R$ 50 mil de recursos próprios e R$ 47 mil de doações de pessoas físicas na prestação parcial consultada. Entre os doadores individuais aparecem Carlos Eduardo Gomes Callado Moraes e Ivan Perez Civolani. Esses registros demonstram uma relação contábil campanha–partido/doadores, não compra de decisões parlamentares.

André do Prado — receitas e doadores declarados, fonte com base no TSE. Consulte o ranking de financiadores e compare campanhas diretamente no painel.

Os três erros mais comuns

1. Doação de pessoa física não equivale a doação da empresa de que essa pessoa é sócia. 2. Repasse público ou partidário não é patrocínio privado. 3. Pagamento a fornecedor de campanha é despesa, e não financiamento recebido. Atribuições de influência ou contrapartida exigem prova adicional independente.

Pesquisar os financiadores atuais no Eleições →

Verificação e limites

O que os documentos provam — e o que permanece hipótese?

ProposiçãoResultado da checagemLimite
Antigas famílias políticas seguem ativasComprovado para algumas linhagens nominaisNão permite generalizar a todos os atuais deputados
Rede Costa Neto–PL–presidência da ALESPRelação histórica, política e institucional documentadaNão é prova de controle das 94 cadeiras nem de financiamento familiar comum
Interior fiel à Arena até BolsonaroContrariado pela votação MDB no interior em 1974 e 1978Não exclui continuidades regionais pontuais
Ditadura menos repressiva no interior explica o voto de 2022Não demonstradoFalta medida municipal de repressão e análise causal controlada
Campanhas 2026 receberam repasses e doações individuaisHá valores e nomes declarados, com datasPrestação parcial pode ser retificada; não há contrapartida presumida

A pesquisa histórica indica que a extinção dos partidos e a reorganização administrativa alteraram o poder municipal e permitiram acomodação de elites antigas e emergência de novas lideranças. Kerbauy aponta também a ascensão do MDB nos municípios a partir de 1972 e mudanças sociais ligadas à urbanização. Essas mudanças fornecem uma explicação mais complexa do que a hipótese de que o eleitorado do interior teria mantido apoio contínuo ao regime militar.

Para avançar de plausibilidade histórica para teste causal, é necessário mapear os 645 municípios com resultados por pleito, indicadores sociais, atividades econômicas, religião em bases agregadas, composição partidária municipal e vínculos pessoais verificados por documentos. Correlações ecológicas não autorizam atribuir motivação a cidadãos individualmente.

Próximo cruzamento de dados: ator histórico → partido e cargo (com período) → parentesco documentado → candidatura atual → doador ou direção partidária → lançamento contábil (ano, valor, origem) → fonte oficial. Cada ligação deve guardar documento, data e nível de confirmação. O site Eleições permite iniciar pelo financiamento e pela candidatura; nenhum vínculo genealógico deve ser inferido apenas pelo sobrenome.

Síntese documental

Conclusão: reorganização de elites, novos movimentos e continuidade seletiva

É possível seguir algumas cadeias até hoje — por exemplo, Arena em Mogi das Cruzes → Valdemar Costa Neto → PL → articulação com André do Prado e aliança partidária com Bolsonaro. Outras linhagens, como a Chedid, conservaram mandatos familiares ao mudar da ALESP para prefeituras; já Macris remete à oposição do MDB. Essa genealogia não implica que todos compartilhem as mesmas ideias nem que os vínculos tenham permanecido inalterados por 62 anos.

Em paralelo, o crescimento do MDB no interior durante a ditadura e a mudança do voto da capital entre 2018 e 2022 mostram que a geografia eleitoral não é estática. A investigação comprova permanência de algumas redes, mas não comprova que antigas famílias da Arena sejam causa predominante da distribuição atual de votos. A pergunta financeira pode agora ser feita caso a caso com prestação de contas e fontes rastreáveis, sem inferir ilegalidade.

Ver doadores e repasses no Financiando o Brasil · Receitas declaradas em São Paulo · Guia sobre financiadores e tipos de recurso.

Bibliografia e dados primários

Fontes consultadas e links para verificação

  1. Kerbauy, Maria Teresa M. (1993). O tradicionalismo em declínio: mudanças político-institucionais e tendências eleitorais após 1964 no interior paulista. Unesp, artigo e tabelas originais.
  2. Assembleia Legislativa de São Paulo. Biografia de Nabi Abi Chedid, com mandatos pela Arena.
  3. Assembleia Legislativa de São Paulo. Registro da sessão solene de 27 de fevereiro de 2026, com André do Prado e Valdemar Costa Neto.
  4. Câmara dos Deputados. Biografia parlamentar de Jair Bolsonaro, trajetória de partidos e mandatos.
  5. Tribunal Superior Eleitoral. Estatísticas eleitorais e prestação de contas de 2026.
  6. LCF Consulting, Financiando o Brasil — Eleições 2026, recorte de receitas SP, metodologia editorial de doadores.
  7. Conexão Política, prestação declarada de Tarcísio de Freitas, 2026.
  8. Hub Político, prestação parcial de André do Prado, Senado 2026.
  9. Hub Político, resultados municipais 2022: Americana, Araçatuba, Araraquara, Franca, Limeira, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, São Carlos.

Nota editorial: valores financeiros e situações eleitorais têm datas próprias; os números de 2026 representam fotografias temporais e podem ser retificados. Apuração histórica independente, sem vínculo institucional com a Justiça Eleitoral, sem endosso de candidaturas e sem alegações de irregularidade por mera doação declarada.